>CARTA DE UM ALUNO DA ETEC HORÁCIO AUGUSTO SILVEIRA, NA VILA MARIA – SP


>CARTA DE UM ALUNO DA ETEC HORÁCIO AUGUSTO SILVEIRA, NA VILA MARIA – SP
Tenho 16 anos e durante a minha vida inteira estudei em escola pública. No ano passado comecei a cursar o ensino médio na Etec Horácio Augusto da Silveira, na Vila Maria, e realmente o ensino é muito diferenciado. Não é à toa que o Estado põe as Etecs na frente da vitrine eleitoral e o “investimento” nelas está sempre na ponta da língua do governador. Não é à toa que todo mundo quer uma Etec na sua cidade, no seu bairro e no seu currículo. E assim dá até para acreditar que o governo está investindo na educação.
Porém, são acontecimentos como os dos últimos dias que nos fazem ver a triste realidade por trás dos comerciais de campanha eleitoral: na terça-feira, 10 de maio, foi anunciada a greve eminente dos funcionários do Centro Paula Souza, lutando por melhores condições de trabalho e por um reajuste salarial que não é feito desde 2005.
Hoje um professor de Etec ou Fatec ganha menos que um da rede pública, e sem os direitos de servidor público, enquanto o Estado se vangloria de entregar prédios a torto e a direito e usa isso como isca para eleitores a cada quatro anos.
É realmente triste saber disso. Até a alegria de passar num vestibulinho perde um pouco o brilho. Mas pior ainda é perceber que esses fatos sintetizam bem o modo como é tratada a educação hoje, não só em São Paulo, mas no Brasil inteiro. Colocada sempre em segundo plano, atrás de concepções burras de sucesso sustentadas pela mídia e por um governo que considera mais importante o produto interno bruto de um país, e não o seu desenvolvimento cultural e ético.
É incrível como, num país com tantas necessidades, o professor seja tratado com tanto desrespeito, como se o seu papel na sociedade não tivesse utilidade alguma. É incrível como, num país com tantos sonhos de desenvolvimento, a educação seja tratada apenas como propaganda eleitoral. O governo não dá atenção ao fato de que o professor tem de estudar muito para fazer o que faz. Não é apenas entrar na sala e escrever alguma coisa na lousa. O professor transforma o aluno num cidadão pensante, num eleitor pensante – talvez por essa razão a educação seja menos importante aos olhos do governo.
Realmente fico triste com a greve dos professores. Não porque eu seja “amiguinho” dos professores da minha escola. Há alguns de quem eu nem gosto tanto assim, mas depois da notícia da greve finalmente tive a noção de que isso não é problema do professores, nem do governo, nem do Centro Paula Souza. É problema meu e seu, é problema do Brasil. O Brasil formado por alunos, não por “animais com direito de voto”, formado por gente que faz o futuro, não pela parcela medíocre do passado que ainda está no poder.
Formado por gente que tem noção de que um país só tem crescimento e desenvolvimento se estiver fundamentado numa coisa, acima de tudo: educação.
Sem ela nós não temos chance de nada, e as ideias futuristas de Brasil documentadas por Stefan Zweig perdem todo o sentido, todo o sangue derramado durante a ditadura perde todo o valor e qualquer evolução econômica não tem nenhuma importância.
Sem educação nós não somos nada.
E parece que o governo não se ligou nisso ainda…
Lucas Paulo da Costa

Publicado na secção de cartas do Estadão:Secção em EDUCAÇÃO, GOVERNO E GREVE http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110516/not_imp719668,0.php

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